A última edição do Vocabulário Internacional de Metrologia (VIM) completou treze anos no ano de 2008. Já é um vocabulário adolescente. Apesar disso, ainda existem pessoas que não entendem (ou não aceitam) algumas definições do VIM. Essas pessoas acabam “inventando” definições que não existem no VIM. Uma das definições do VIM menos entendida é uma das mais importantes: Calibração.

De acordo com o VIM, calibração é:   “Conjunto de operações que estabelece, sob condições especificadas, a relação entre os valores indicados por um instrumento de medição ou sistema de medição ou valores representados por uma medida materializada ou um material de referência, e os valores correspondentes das grandezas estabelecidos por padrões”. 

Uma definição simples e completa, entretanto diversas pessoas a substituem por outros termos, como por exemplo, verificação (que embora exista na metrologia legal e na definição da ISO 9000, não existe na metrologia científica - VIM) ou resgatam termos que já não existem há décadas, como AFERIÇÃO (esse, sem comentários).   Certa vez, em uma auditoria, ouvi uma pessoa dizer:

- Aqui nós compramos os termômetros calibrados e periodicamente fazemos a verificação dos mesmos.   Apenas por curiosidade, perguntei porque ele usava a palavra verificação e não calibração. A resposta foi:

- É porque fazemos a verificação em apenas um ponto da escala do termômetro, se fizéssemos em todos os pontos da escala recomendado pela norma, aí sim, seria calibração.   Encerrei as perguntas (curiosas e que não faziam escopo da auditoria) por aí mesmo.

Em uma outra auditoria ocorreu uma situação idêntica. A diferença foi que o material em questão era uma pipeta graduada. O auditado soltou a pérola:  - Nós preferimos comprar as pipetas graduadas calibradas e realizar as verificações periodicamente nós mesmos.   Perguntei porque ele usava a palavra verificação e não calibração. A resposta foi: 

-Porque fazemos a verificação periódica apenas da capacidade máxima da pipeta graduada, para ser calibração teríamos que fazer a verificação em vários pontos da escala da mesma.   Bom, nesta ocasião, não pude deixar de tecer o seguinte comentário: 

- Então, de acordo com sua definição de calibração, uma pipeta volumétrica, que possui apenas um ponto para a medição do volume, jamais será feita calibração, sempre será feita apenas verificação na mesma. É isso?    Ele não respondeu. Mas com certeza, pela expressão dele, ficou pensando em respostas para o que perguntei.  

Agora pergunto a você que está lendo este artigo. Por acaso está escrito no VIM que o termo calibração depende de quantos pontos da escala de um instrumento de medição é calibrado? Eu não li isso. Você leu?   Existe outra situação onde as pessoas substituem (equivocadamente) o termo calibração por outro, como verificação ou validação. Vejamos.  

Existem alguns instrumentos que, para fornecer o resultado correto de uma medição, precisam receber a informação dos valores dos padrões ou materiais de referência. Um instrumento que determina o teor de enxofre em amostras, por exemplo. Normalmente esse tipo de instrumento precisa ser informado dos valores do teor de enxofre dos materiais de referência certificados. Uma vez que o operador (técnico) tenha informado tais valores, o instrumento realiza uma série de ajustes (normalmente automaticamente). Terminados os ajustes, costuma-se dizer que o instrumento possui agora uma curva de calibração. Se pararmos para ver nas entrelinhas, de acordo com o descrito acima, o termo curva de calibração não existe, pois o instrumento realizou uma série de ajustes (com apoio inclusive de softwares) e não uma calibração. Portanto, o correto seria chamar as curvas de calibração de curvas de ajuste. É por esse motivo que, sempre após a realização de uma curva de calibração ajuste, devemos fazer a leitura de um material de referência certificado na curva criada. E quando fazemos isso, aí sim, estamos fazendo a calibração. Antes disso não.   O problema é que, no exemplo acima, as pessoas costumam chamar o processo de obtenção da curva de ajuste de CALIBRAÇÃO e costumam chamar o processo de calibração (que é a leitura de um material de referência certificado (ou não) pelo instrumento que teve a curva de ajuste criada) de VERIFICAÇÃO.  

O termo ajuste é defino pelo VIM como:“Operação destinada a fazer com que um instrumento de medição tenha desempenho compatível com o seu uso. Observação: O ajuste pode ser automático, semi-automático ou manual”.

Sendo assim, o mais correto seria utilizar o termo CURVA DE AJUSTE, embora soe estranho devido a falta de utilização desse termo. Mas, cá pra nós, soa bem menos estranho que a palavra ACREDITAÇÃO (tão pouco utilizada que tive que incluí-la no dicionário do Microsoft Word para eliminar o sublinhado vermelho) que o INMETRO passou a utilizar no lugar da palavra CERTIFICAÇÃO.  Resumindo, na prática, a calibração é … 

… você comparar a leitura de um objeto com a leitura de um padrão ou material de referência, sendo esta comparação feita sob condições estabelecidas.    Só isso. Simples assim.  

O maior problema de todos é que existe uma revisão do VIM em andamento onde o termo VERIFICAÇÃO é definido. Embora o conceito seja totalmente diferente daquele que as pessoas costumam usar, provavelmente esta definição perturbará ainda mais a mente daqueles que acham que calibração é verificação.  

Assim que a nova versão do VIM com o termo verificação definido for oficialmente lançado no Brasil vamos fazer uma análise do mesmo.

Até lá.